03/11/2006 ..

Direito!



Outro dia vi um livro de Direito que chamava: "Direito posto e Direito pressuposto" ou algo parecido. Antes de mais nada, quero deixar bem claro que não entendo nada de Direito, a lei. Entendo sim, ou pelo menos tento todos os dias entender de: respeito.

Esse título sobre o assunto me fez pensar muito. Aliás, ando pensando muito ultimamente. Até onde vai o direito de certas coisas, quando esse direito realmente existe? E até onde vai, quando esse direito não existe, mas pressupõe-se, por algum motivo que exista.

Estou escrevendo às 2 da manhã, ainda no restaurante. Detalhe, o restaurante ainda não encerrou as suas atividades, ainda temos mesas finalizando o serviço e apesar de todos estarem exaustos, estamos mantendo o sorriso atento.

Está bem, vão dizer: "Isso não quer dizer nada. Afinal, você escolheu essa profissão!" Concordo em número, gênero e grau.

Só não concordo com a falta de compreensão, a falta de uma reflexão mais profunda do que vem a ser esse trabalho. Da energia depositada, da batalha, da emoção - mesmo que às 2h30 da manhã! - da alegria de se estar fazendo isso, porque realmente se acredita nisso, porque efetivamente se quer isso.

Da falta de sensibilidade em relação à troca que é proposta todas as noites. Troca, palavra tão elegante, mas tão incompreendida. Trocar, dividir, participar, doar, receber, sonhar junto.

Sonho com a compreensão mútua, ou seja, o equilíbrio entre as expectativas e o respeito. Acredito que esse dia chegará quando todos compreenderem que a grande felicidade está na troca!

Então, para não ser injusta, já que os pedidos de receitinhas não param, aí vai a nossa troca de hoje, com toda a energia e felicidade que as trocas merecem!


Aspargos croustillant (Para 8 pessoas )


Por Roberta Sudbrack



Ingredientes


8 aspargos frescos


4 folhas de massa phyllo


250 g de manteiga sem sal gelada


1 cebola finamente picada


1 cálice de vinho branco seco


2 colheres de sopa de vinagre de vinho branco


Flor de sal


Modo de preparo


Derreta 50g de manteiga.


Limpe os aspargos e cozinhe em água fervente com sal. Retire e coloque imediatamente em um recipiente com água e gelo, para parar o cozimento e manter a cor e a textura. Seque bem.


Corte as folhas de massa phyllo em quadrados de 10x10 cms. Com a ajuda de um pincel unte as folhas de massa phyllo e envolva os aspargos, repita a operação com mais uma folha, sempre pincelando com manteiga por dentro e por fora.


Em uma panela pequena coloque a cebola, o vinho, a cúrcuma e o vinagre e reduza em fogo médio até quase secar. Deve restar mais ou menos uma colher de sopa de liquido.


Volte à panela ao fogo baixo com o líquido restante e a cebola e incorpore aos poucos 200g de manteiga sem sal gelada cortada em pequenos pedaços, sem deixar ferver, até adquirir um molho cremoso. Coe, tempere com sal e pimenta do reino moída na hora e reserve.


Em uma frigideira antiaderente acrescente um pouco da manteiga derretida restante, doure os aspargos e sirva com o molho de manteiga e flor de sal.


01/11/2006 ..

O Cream cracker na minha vida...



Ainda falando de cotidiano, lembrei-me de cream cracker!

Outro dia respondendo algumas perguntas em uma entrevista, veio essa: o que você mais gosta de comer? Fiquei um tempinho em dúvida – tempinho nada, a pergunta me desconcertou –, fiquei horas pensando!

Pensei no frango ensopado com polenta da minha avó, pensei no pato selvagem da Rotisserie du Beaujolais em Paris, no arroz da Toca do Daniel em Congonhas, no pão com lingüiça do alemão na entrada de Itaipava, no hambúrguer do Joe & Leos aqui no Rio, na picanha com batata frita – as melhores do Rio! - do Gepeto em Vargem Grande, no brigadeiro da Colher de Pau, no Leblon, nas saladas da minha amiga e “ídola” Dona Rosa do Celeiro, no pão do Talho Capixaba com salaminho, e em todas as geléias do mundo!

De repente percebi que estava em dúvida. Então, a pessoa que mais conhece a minha alma e que por sorte estava comigo, riu e disse: cream cracker!

Confesso que fiquei chocada. Passei dias pensando: mas que pessoa mais sem graça que eu sou! Pensei, pensei, questionei, relembrei. A verdade, e eu adoro a verdade, é que eu sou louca por cream cracker! Como desde que nasci! Como todos os dias, no café da manhã, no meio da tarde, de vez em quando de madrugada! Como com requeijão, com geléia, com manteiga! Só manteiga e café preto, acho que realmente não tem nada melhor.

Vivo a procura do cream cracker perfeito! Experimento todos, compro qualquer marca que encontrar na busca pelo cream cracker quase perfeito, seja qual for. Podem ser aqueles de pacotão tipo família, podem ser aqueles mais sem vergonhas do mundo! Não importa, topo todas se for cream cracker, só não vale ser água e sal, porque esse eu não suporto! Faz-me lembrar de quando morei nos EUA e não conseguia de jeito nenhum encontrar algo que me remetesse a ele, então só me restava os água e sal ingleses. Resultado: tomei abuso!

Ando encantada com o da Parmalat, não tem igual! Eu, minha avó e o Frederico – que também são loucos por cream cracker - decidimos que, por enquanto, é o melhor. Só tem um pequeno probleminha: não se acha em qualquer lugar, para ser mais exata, é uma dificuldade encontrar! Outro dia descobrimos o mapa da mina. Vou contar, mas não vale correr até lá, comprar tudo e me deixar sem suprimentos!

A boa é a seguinte: na Padaria Rio Lisboa que fica do lado do Talho Capixaba, na Ataulfo de Paiva, tem! Vende muito porque está sempre fresquinho. Dessa vez matei a charada! Depois de anos procurando a resposta nos Tostines, encontrei na Parmalat! Eureka!

A Rio Lisboa, que fica aberta 24 horas, é uma instituição carioca e tombada pelo patrimônio emocional do cidade! Aí de quem pensar em tocar nela! Outro dia, rolaram rumores de que fecharia e no local seria construído mais um prédio pra lá de moderno e repleto de apartamentos. Foi um caos! Carioca enfurecidos - inclua-se aí eu – invadiram a padaria protestando! Saiu nota no jornal, matéria de capa nas revistas, enfim, um tumulto! Para nossa alegria, era um boato, se bem que, se fosse verdade, acho que o dono ficaria até com medo e desistiria de sequer pensar nessa possibilidade. Acho bom, afinal, lá tem o melhor frango assado de padaria, com filas quilométricas aos domingos, o melhor pão na chapa do Rio e cream cracker sempre fresquinho!

Bem, quanto aos meus dilemas existenciais em relação ao cream cracker ser a coisa que mais gosto de comer na vida, decidi aceitar e pronto!

E sabe de uma coisa? Depois de reviver na minha mente, como num filminho, a história do cream cracker na minha vida, cheguei a duas conclusões: o cream cracker pode SIM transformar você em alguém muito mais interessante! E: feliz de quem tem ao seu lado alguém capaz de conhecer a sua alma melhor do que você!

Até!
31/10/2006 ..

Cotidiano


Adoro o cotidiano, adoro as coisas simples que fazemos todos os dias sem dar a importância, às vezes sublime, que elas têm. Presto muita atenção nele, porque é nele que muitas vezes busco a inspiração para minhas criações, meus sonhos, minhas viagens na cozinha.

Recriar a simplicidade de um dia comum em um prato é para mim o pargo em compota de milho doce. Prato inspirado nos passeios de casaco em dias nublados pelo calçadão. A compota tem a pretensão de tentar recriar a sensação de memória da primeira mordida no milho quente vendido na praia, salgadinho, repleto de manteiga boa.

E o pargo? O pargo é o cotidiano, a vida que vai, que vem, que segue a maré ou não. È a verdade, a simplicidade, a intensa ilusão de que a vida pode ser sempre maravilhosa, fresca, tenra, inteira.

As cenas do dia-a-dia me encantam, me inspiram, me confortam, me transportam. Viver o cotidiano com intensidade e prazer é tão bom quanto se doar por inteiro àquilo que acreditamos. Mergulhar fundo e sem medo na complexidade das simples cenas do nosso dia-a-dia.

Hoje tive tempo de ir ao Talho Capixaba, minha padaria predileta. Há quanto tempo não conseguia viver essa sensação...Deixei o Frederico na porta, entrei, olhei tudo com olhos de filhotinhos de Golden Retriever, como se tudo a minha volta fosse novidade, descoberta. Comprei ciabatta recém saída do forno, estalando de quente! Comprei também, manteiga Aviação, minha preferida e a que uso no restaurante e o queijo Minas Solidão, dos melhores que conheço. Avistei o sacristão, que eu amo de paixão, e não pude resistir, principalmente porque ainda tenho em casa uma reserva de geléia Bonne Maman de morangos para acompanhar!

Saí feliz, repleta de sacolas. Dei uma para o Frederico, que carrega na boca até em casa. Essa é a cena cotidiana da vida dele, que ele adora, que ele respeita. Acabei me dando conta de que andava com muita saudade dessa cena, antes tão cotidiana na minha vida também, hoje tão difícil.

Cheguei em casa, cafezinho da avó Iracema pronto, passei manteiga na ciabatta que ainda estava quente e mordi com prazer, muito prazer! Comi sacristão com geléia, que geléia, bendita seja Ana de Bruxelas! Abri o queijo Minas, tirei o soro, acomodei no prato e comi, fatias e fatias - com a mão mesmo, não existe nada melhor ! - estava fresquinho, tenro, sal na medida, umidade certa, um néctar. Uma verdadeira poesia do cotidiano. Viva o cotidiano!

Até!
30/10/2006 ..

Formatura na Rocinha


Escrevo domingo, pois segunda bem cedo é dia de festa. Dia de formatura de mais duas turmas do curso aprendiz de cozinheiro, que coordeno na favela da Rocinha aqui no Rio há dois anos.

Dia de festa, que festa! Dia de realização, olhinhos brilhando, alegria incontida e meia missão cumprida. A outra metade é com eles daqui para frente. A nós, resta olhar orgulhosos e torcer. A não ser quando o destino nos permite dar uma forcinha, e isso aconteceu algumas vezes.

Josefa, um dos maiores talentos na minha equipe saiu dali. Daniel, nosso ex-lavador de pratos e hoje exímio auxiliar de cozinha – capaz de preparar o melhor hambúrguer batido na ponta da faca que conheço - também passou por ali. David, nosso mais novo mascote, de um talento nato e uma postura encantadora, saiu de lá direto para a nossa casinha laranja à beira do canal. Outros a gente pôde dar uma forcinha e ouve notícias para lá de boas todos os dias.

Certa noite no restaurante um cliente me contou a seguinte história: jantava freqüentemente na casa de um amigo que sempre contratava o serviço de um buffet de sua preferência. Segundo ele era sempre maravilhoso, mas naquele dia o jantar estava incrível. Quando se preparava para fazer um elogio, a dona da casa antecipou-se e pediu desculpas, pois naquela noite quem havia preparado o jantar teria sido a sua assistente de muitos anos. Todos riram e disseram que ela deveria empossar a assistente como chef principal da casa, pois o jantar estava maravilhoso. Além disso, ele fez questão de parabenizar pessoalmente a cozinheira, que com um sorriso largo e cheio de orgulho – segundo a descrição dele – disse ter cursado e se formado com a chef Roberta Sudbrack.

Não sei se já fiquei mais sem graça ou emocionada na vida, essa aluna estará lá amanhã e lhe entregarei pessoalmente o diploma de conclusão do nosso curso. Além dela estará o Daniel, nosso pupilo, que no sábado, às 2h30 da madrugada, depois de um jantar tenso, se despediu com um sorriso enorme dizendo: “Boa noite, chef. Até segunda! Grande dia, não é chef?”

Toda essa emoção difícil de descrever, que certamente tomará conta de nós amanhã, faz parte da magia de poder dividir o que se tem de melhor e ter a certeza de que a vida é muito mais interessante assim.

Até!

2000-2006 Globo.com. Todos os direitos reservados.